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Corrimento vaginal: Causas, diagnósticos e tratamentos farmacológicos

1 de julho de 2021
Corrimento vaginal

Entenda mais sobre corrimento vaginal

O corrimento vaginal é uma das preocupações mais frequentes entre as mulheres, principalmente, nas que estão em idade reprodutiva.

Por constrangimento ou medo, antes de procurar o médico, as pacientes com sintomas vaginais frequentemente recorrem à automedicação ou ao aconselhamento no balcão da farmácia, o qual nem sempre é realizado pelo farmacêutico.

A secreção vaginal é uma resposta fisiológica do organismo feminino.

Qual o aspecto do corrimento

Quando não existe processo patológico envolvido, a secreção vaginal apresenta-se de cor clara ou branca, sendo composta de líquidos cervicais, podendo variar na quantidade e no aspecto, dependendo do período do ciclo menstrual.

No entanto, quando algum processo infeccioso ou inflamatório encontra-se presente, as características da secreção modificam-se, caracterizando o corrimento vaginal.

Contudo, colher a história da paciente como, início, fase do ciclo menstrual, duração, cor, odor, história sexual ou uso simultâneo de medicamentos, pode auxiliar no reconhecimento da causa e no tratamento adequado do corrimento vaginal.

Principais causas do corrimento vaginal:

Infecções sexualmente transmitidas, como por exemplo: Clamídia, Gonorréia Tricomoníase, Herpes simples.

Outras infecções, tais como: Candidíase e Vaginose Bacteriana.

Outras causas: Vaginite atrófica, Gravidez, Iatrogenia, Câncer, Condições dermatológicas.

Infecções sexualmente transmissíveis

Das infecções sexualmente transmissíveis, a infecção por Chlamydia trachomatis é a mais comum.

A clamídia é um parasita intracelular que infecta o epitélio do canal endocervical e a uretra.

Cerca de 80% das pacientes infectadas por clamídia é assintomática, mas se os sintomas existem, estes manifestam-se de 1 a 3 semanas após a infecção, como um corrimento vaginal purulento, sangramento póscoital ou inter-menstrual, dor abdominal baixa e dispareunia.

A infecção por clamídia não tratada pode levar a sequelas importantes, como, gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica e até infertilidade.

Por este motivo, e, pelo fato de que a sintomatologia assemelha-se a outras doenças vaginais, o diagnóstico laboratorial se faz necessário. Antígenos bacterianos podem ser detectados por imunofluorescência ou métodos imunoenzimáticos.

A Neisseria gonorrhoeae é um diplococo gram-negativo que infecta os sítios de contacto sexual como o endocérvix, a uretra e o reto. O período de incubação do gonococo é de 5 a 7 dias.

Na maioria das vezes, a infecção é assintomática na mulher, mas pode aparecer um corrimento vaginal espesso e purulento.

A infecção não tratada pode evoluir para doença inflamatória pélvica. O diagnóstico laboratorial de rotina da gonorréia se faz pela microscopia, coloração de Gram e cultura.

Um corrimento vaginal abundante, delgado, espumoso e mal cheiroso, de cor acinzentada, amarelada ou esverdeada, constitui o principal sintoma da infecção por Trichomonas vaginalis em 70% das mulheres.

Nos homens, a prevalência é muito menor, provavelmente, porque a infecção é benigna e assintomática. A via primária de transmissão é o contacto sexual, com um período de incubação entre quatro e 20 dias após a exposição ao protozoário.

Fatores predisponentes para a transmissão do tricomonas incluem múltiplos ou novo parceiro sexual, ausência de barreiras contraceptivas e presença de outras doenças sexualmente transmissíveis.

O diagnóstico da tricomoníase em mulheres é baseado nos sintomas que a paciente apresenta, no exame pélvico e na avaliação laboratorial do corrimento vaginal.

A paciente pode apresentar coceira, eritema vulvar, erosões na cérvix (“cérvix morango”) e linfadenopatia localizada.

O pH do corrimento vaginal é geralmente maior que 4,5 e o exame microscópio revela a presença de leucócitos e tricomonas flagelados. A adição de hidróxido de potássio (KOH) 10% ao corrimento pode produzir um característico “odor de peixe”.

Vaginose bacteriana

A vaginose bacteriana é a causa mais comum de corrimento vaginal em mulheres em idade reprodutiva.

É caracterizada por um crescimento anormal de bactérias anaeróbias como Gardnerella vaginalis, Peptostreptococcus, Mobiluncus, Prevotella, Bacteroides e Micoplasma hominis, com concomitante diminuição de lactobacilos da flora normal.

Os lactobacilos produzem o ácido lático através da glicólise, e assim mantém o pH vaginal ácido.

A alcalinização repetida da vagina, que pode ser resultante de intercursos sexuais frequentes, uso de duchas vaginais ou período prémenstrual, favorece a alteração da flora bacteriana vaginal. O “odor de peixe” pode aparecer por causa da produção de aminas pelo metabolismo aeróbico.

A vaginose bacteriana não é considerada uma infecção sexualmente transmissível, uma vez que o tratamento do parceiro não diminui a freqüência ou o intervalo das recorrências.

Por outro lado, a freqüência é maior nas mulheres com maior número de parceiros sexuais, sendo rara nas sexualmente inativas.

Metade das mulheres com vaginose bacteriana são assintomáticas. Mas, sintomas comuns incluem, corrimento vaginal delgado, homogêneo e geralmente de cor branca, acinzentada, amarelo esverdeada. Coceira, inflamação e irritação podem ocorrer em cerca de 15% das mulheres.

O diagnóstico da vaginose bacteriana baseia-se no pH, sempre maior que 4.5, e na presença de células indicadoras ou “clue cells” no exame do corrimento.

Por ser uma infecção superficial onde a inflamação está ausente, a presença de leucócitos pode indicar outras infecções, tais como a tricomoníase.

Candidíase vulvovaginal

A candidíase vulvovaginal (CVV) também referida como monilíase é a segunda infecção vaginal mais comum.

Diversas espécies de Candida podem ser isoladas da vagina de 10-20% das mulheres em idade reprodutiva e 30-40% das mulheres grávidas.

Aproximadamente 80-90% dos casos de CVV são causados pela Candida albicans. Outras espécies como Candida não albicans, Candida tropicalis e Candida glabrata, são mais raras e mais resistentes ao tratamento farmacológico.

A CVV não é considerada uma doença sexualmente transmissível, visto que pode acometer mulheres celibatárias e que a Candida albicans faz parte da flora vaginal.

No entanto, freqüentemente a CVV é diagnosticada em mulheres com outras doenças sexualmente transmissíveis que apresentam corrimento vaginal.

Não há fatores predisponentes identificadores para a maioria dos episódios de CVV, mas gravidez, uso de contraceptivos orais ou estrogênio na pós-menopausa, uso de dispositivo intra-uterino ou outras e barreiras contraceptivas, o diabetes mellitus, dietas ricas em açúcar, tratamento com antibióticos de largo espectro ou drogas imunossupressoras, infecção por HIV, colonização gastro-intestinal e relações sexuais freqüentes ou sexo oral receptivo, são considerados fatores de risco.

Os sintomas característicos da CVV são pruridos intensos, eritema vulvar ou vaginal, disúria e sensação de ardência ao urinar.

O corrimento vaginal é branco e espesso, sem odor ofensivo, com aparência de leite coalhado ou queijo tipo cottage.

Neste caso, diferente da vaginose bacteriana ou tricomoníase, o corrimento vaginal apresenta-se sem odor repugnante.

Os sintomas são mais pronunciados na semana antes da menstruação e melhoram com o início da mesma. O diagnóstico da CVV é estabelecido através da história da paciente e do exame microscópico do corrimento vaginal que apresenta leveduras e hifas.

Na candidíase vulvovaginal, o pH é normal (4–4,5) e o teste do cheiro é negativo.

A cultura é o teste diagnóstico mais sensível, mas deve ser reservada para aquelas instâncias nas quais os sinais e sintomas estão presentes e o exame direto é negativo para hifas.

A CCV pode ser classificada como complicada ou não complicada.

A CVV não complicada ocorre em cerca de 90% das pacientes e responde prontamente à terapia antifúngica tópica ou oral de curso curto.

Corrimento Vaginal por Alterações Fisiológicas

Vaginite atrófica

A vaginite atrófica caracteriza-se por uma inflamação relacionada com a atrofia da mucosa vaginal, secundária a uma diminuição nos níveis de estrogênio.

A vaginite atrófica pode ocorrer na menopausa, período pós-parto, amamentação, mulheres recebendo radio ou quimioterapia ou ainda naquelas que estejam tomam medicação anti-estrogênica (clomifeno e medroxiprogesterona, por exemplo).

Com a diminuição do estrogênio, o epitélio vaginal torna-se fino e a lubrificação vaginal diminui.

Estas alterações levam a uma redução na produção de lactobacilos e um aumento do pH, favorecendo o crescimento de coliformes, levando assim a produção do corrimento vaginal.

Além da diminuição da lubrificação vaginal, sintomas como irritação vaginal, secura, ardência, coceira e dispareunia podem ocorrer.

O corrimento vaginal se apresenta delgado, aquoso, mal-cheiroso, de cor amarelada e ocasionalmente podendo conter sangue.

O objetivo inicial do tratamento da vaginose bacteriana é reduzir ou eliminar os sintomas da secura vaginal, ardência e coceira.

Os lubrificantes íntimos têm a capacidade de umedecer temporariamente o tecido vaginal, fornecendo, à curto-prazo, alívio dos sintomas.

O auto-tratamento é apropriado, quando os sintomas são leves ou moderados e limitados à área vaginal.

A vaselina não deve ser usada, pois é de difícil remoção da vagina. Géis lubrificantes solúveis em água são os mais indicados e podem ser aplicados tanto externa quanto internamente.

Inicialmente, a paciente deve ser instruída a usar uma quantidade generosa de lubrificante (acima de 2 tubos), entretanto a quantidade e a freqüência devem ser específica de acordo com a necessidade individual. Se a paciente estiver tratando a dispareunia, o lubrificante deve ser aplicado tanto na abertura da vagina, quanto no pênis do parceiro.

A prevenção da secura vaginal pode requerer a prescrição de hormônios à base de estrogênio, principalmente se ocorrer durante a menopausa.

Gravidez

Durante a gravidez, a presença de um corrimento vaginal é comum e decorre principalmente da hipertrofia do epitélio vaginal com aumento de células contendo glicogênio. Há também maior vulnerabilidade para infecções vaginais, como por exemplo, para a candidíase.

A presença de corrimento vaginal purulento, mal-cheiroso, ou sintomas como coceira ou dor abdominal deve ser investigada. O tratamento adequado, já especificado anteriormente, pode prevenir complicações maternais e fetais.

O papel do farmacêutico

O farmacêutico tem papel importante na prevenção e tratamento do corrimento vaginal.

Através do acompanhamento e recomendações, o farmacêutico deve assegurar que a paciente receba a terapia mais efetiva, aconselhar na automedicação e encaminhar para avaliação médica quando necessário.

O farmacêutico ainda tem grande responsabilidade na avaliação do potencial de interações entre as medicações prescritas.

Finalmente, o profissional não deve apenas informar sobre o uso correto da medicação, mas também quanto ao tratamento dos parceiros e educar sobre práticas sexuais seguras e uso adequado de preservativos.

O corrimento vaginal é um sintoma bastante comum nas mulheres, podendo estar associado com doenças sexualmente transmissíveis ou não.

É importante estabelecer a causa do corrimento vaginal, para que o tratamento seja adequado.

O farmacêutico tem papel fundamental no aconselhamento e orientação destas pacientes.

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